O Rei do Camarote e o que a psicanálise tem a ver com isso.

Recentemente, ficou famoso nas redes sociais o caso do Rei do Camarote. Uma reportagem sobre um jovem empresário de São Paulo, que gastaria de “5 mil reais ao infinito” em uma única noite de diversão, regada a carros caros, amigos famosos, mulheres e champanhe.

Escolhi esse episódio para escrever porque acredito que temos nele um importante analisador que nos ajuda a refletir novamente sobre somo se estrutura o sujeito no mundo atual e como lidar com o sofrimento que essa nova configuração traz.

Zizek escreve sobre Marx de modo que este afirma que “o fetichismo da mercadoria (nossa crença de que mercadorias são objetos mágicos, dotados de um poder metafísico inerente) não está situado em nossa mente, na maneira como percebemos (ou distorcemos) a realidade, mas em nossa própria realidade social.”¹

O conceito de fetichismo da mercadoria está aqui para servir de suporte para pensarmos o sujeito. Afinal, o rei do camarote não é um indivíduo isolado da sociedade, muito menos longe da nossa realidade, seu discurso não nos parece fantasioso, nem impossível. Sua reportagem apareceu no canal do YouTube de uma revista de alta circulação.

O que temos nesse episódio é, justamente, a realidade social nos fazendo perceber os objetos (o carro, o champanhe e a mulher – todos colocados no discurso como algo que agregaria valor à noitada) como mágicos e dotados de um significado intrínseco. Mas, para o desgosto de todos, inclusive do rei do camarote, isso não resolve a angústia do sujeito.

No entanto, todos podemos se perguntar: Se, aparentemente, o empresário possui tudo que deseja, mesmo que esse tudo seja uma construção social mágica, por que não conseguimos nos colar a essa construção e evitar o sofrimento?

Para tentar responder essa pergunta, que não é nada fácil, utilizo um outro trecho de Zizek:

“Hoje temos […] um sujeito que se apresenta como um hedonista tolerante dedicado à busca de felicidade, e cujo inconsciente é o local de proibições: o que é recalcado não são desejos ou prazeres ilícitos, mas as próprias proibições.”²

Para tentar elucidar, se antes tínhamos culpa pelo que desejávamos (um exemplo simplista, desejar uma mesa farta com comida de sobra, enquanto outros mal têm o que comer), agora essa culpa deu lugar no inconsciente ao: é proibido proibir.

É Rabelais no mundo contemporâneo: Faça o que quiseres, pois é tudo da lei.

A lei agora é: Faça! O inconsciente está proibido de proibir.

Dado isto, andemos agora por um caminho paralelo, para continuar a responder de alguns parágrafos acima. Sendo assim, cito Maria Rita Kehl, que escreve em um de seus artigos que “a mídia produz o sujeito de que o mercado necessita, prontamente para responder a seus apelos de consumo sem nenhum conflito, pois o consumo […] é que estrutura subjetivamente o modo de estar no mundo dos sujeitos.” ³

Somos sujeitos produzidos, somos estruturados a partir de uma demanda – seja do mercado ou da indústria farmacêutica. E é essa demanda estrutural que nos marca no mundo contemporâneo, que nos faz ocupar um lugar, que já ganhou até estatuto e direitos, o lugar do consumidor.

Agora, já podemos dar mais um passo para aproximar esses traçados paralelos. Temos o sujeito estruturado como consumidor no contemporâneo, ao mesmo tempo em que já afirmamos que o que prevalece nesse sujeito é precisamente o imperativo do ‘Faça!’. Desse modo, entender o sofrimento presente nesse sujeito fica mais claro.

Afinal, como seria para o rei do camarote dizer não ao seu imperativo? Ou pior, ao final de todo o ritual hedonista, de só ter dito sim a todos os prazeres que lhe foram proporcionados, perceber que não foi o suficiente para dar conta dos seus desejos. Que seu estatuto de consumidor continua lá – um novo produto irá aparecer, uma nova mulher estará na sua frente. Qual será sua escolha?

Não nos enganemos achando que esse contexto acontece somente com os mais abastados socialmente. A realidade construída socialmente que comentei no começo desse texto está aí para todos. Até políticas públicas caminham no sentido de aumentar o poder de compra da comentada ‘Classe C’ – afinal, ninguém está de fora. Todos são consumidores.

Uma pergunta possível do leitor:

E onde entra nisso tudo a psicanálise?

Em não precisar dizer mais sim a todo o momento, a toda oferta. Saber que existe a angústia do não, mas aprisionar o sujeito em uma única escolha é ainda mais aterrorizante. Afinal, “a psicanálise é o único discurso em que você tem permissão para não gozar – você não é proibido de gozar, apenas é libertado da pressão para fazê-lo”.⁴

¹ – Slavoj Zizek. Como ler Lacan. Zahar, 2010.

² – idem.

³ – Maria Rita Kehl. Videologias. Boitempo, 2004.

⁴ – Slavoj Zizek. Como ler Lacan. Zahar, 2010.

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