Sobre os documentários e os analistas.

Novos textos estão aparecendo na minha mão. Tenho ficado atento para não cair na tentação de “psicanalisar” tudo, repetindo mantras como: Mais Elia Kazan, menos Jacques Lacan.

Contudo, sucumbi novamente. Logo após ler esse trecho de Bill Nichols:

“Assim, os públicos vão ao encontro dos documentários com a expectativa de que o desejo de saber mais sobre o mundo será satisfeito durante o correr da fita”.

Reflito, trazendo a psicanálise para discussão, no caminho do conceito de Sujeito Suposto Saber.

Assim como Nichols afirma que é o desejo de saber algo que nos leva até o documentário, Costa, sob a ótica Lacaniana, afirma em seu artigo que “supor a um Outro um saber é uma abertura necessária à instalação do dispositivo analítico”.

Ou seja, algo aproxima o sujeito que procura uma análise do sujeito que escolhe assistir a um documentário, assim como existe algo de documentarista em cada psicanalista.

É interessante fazermos o contraponto com o que levaria o sujeito escolher assistir a um filme não-documentário, uma ficção. Uma hipótese é a de que, nesses filmes, o estatuto da realidade não está colocado. Os personagens não existem de verdade, aquele drama – por mais que imite a realidade – se acaba no momento em que as luzes se acendem e o espectador volta para sua casa. O que se passa na tela é sonho.

No caso do documentário isso não acontece. Após acenderem as luzes, os personagens continuam existindo e o drama contado não se acaba. O que é mostrado é visto como real, narrado a partir da visão do diretor, mas com o estatuto de real.

Tanto o documentário, quanto a ficção, dizem algo sobre o mundo e sobre nós. Mas enquanto o segundo se traveste de sonho, o primeiro se traveste de realidade.

Realidade essa que, como Eduardo Coutinho afirmou em uma entrevista, tem esse estatuto de verdade, mas pode ser inventada: “E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. ‘Eu fui feliz’, sei lá se é verdade. Tá dizendo! Pode ser que daqui um ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora!”.

Assim, o conteúdo tanto da ficção, quanto do documentário, são inventados. Mas, o segundo se passa por verdadeiro. E é esse ‘se passa’ que cria uma roupagem de verdade e saber – que sempre caminham juntos – atraindo espectadores para salas de cinema.

Assumindo que não sei algo do mundo, vou até uma sala de cinema, propondo-me a construir novos saberes, mesmo que inventados.

Para concluir, retomando a psicanálise.

Ao admitir que possuo questões e não sei respondê-las, posso procurar um psicanalista, que assumirá, como um documentário, uma posição de suposto saber.

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