O Suicídio e a Psicanálise

A radicalidade do ato suicida sempre impõe uma extrema reserva a nossas reflexões.  (J. D. Nasio)

Atento às palavras de Nasio, me arrisco a fazer algumas reflexões, pois foi impossível deixar esse assunto de lado depois de ler esta reportagem aqui.

Com um título que salta aos nossos olhos – A Epidemia de Suicídio Negligenciada –, somos apresentados à história de Benjamin, que depois de ser diagnosticado com Transtorno Esquizoafetivo caminhou até a Waterloo Bridge, em Londres, e quando já estava na beira da ponte viu um estranho se aproximar e perguntar se ele gostaria de tomar uma xícara de café.

Isso foi em 2008. Benjamin não pulou.

Na mesma reportagem lembram o caso de um rapaz americano na faixa dos trinta anos que cometeu suicídio. Quando uma equipe foi até sua casa, encontraram o bilhete: “Eu vou caminhar até a ponte. Se uma pessoa sorrir para mim no caminho, eu não vou pular.”.

Aconteceu em 1970. Ele pulou.

Não podemos escamotear alguns dados. Nos Estados Unidos, o suicídio, de acordo com uma pesquisa realizada em 2012, já mata mais do que acidentes de carro e entre os jovens já é a terceira maior causa de morte.

E para trazer uma luz a esse tema sob a ótica da psicanálise, faço referência a esse artigo que não é tão amistoso para o pessoal que não é da área, mas que vale a leitura.

Citando-o:

“ […] concebendo a tentativa ou o ato suicida como tentativas de descargas que se produzem diante do sofrimento, o qual não pode ser descrito com palavras.” (Brunhari, 2009)

Por mais óbvia que pareça, essa é a intersecção importante de ser apontada: a palavra, o contato com o outro.

Ambos os casos que citei tiveram o destino selado pelo contato com o outro. Um convite para um café fez com que Benjamin não pulasse. A falta de um sorriso do outro culminou no fim da vida de um jovem na década de 70.

Não discutirei aqui (ou melhor, agora) como produzimos uma sociedade na qual o contato com o outro está tão precário, na qual a sensação de solidão e desamparo atingiu níveis tão grandes que só abafamos nossos sofrimentos depois de tomarmos um comprimido.

Mas é importante ressaltar que tanto Benjamin quanto o outro rapaz sofriam dessa angústia inominável, indescritível. E a possibilidade de sair disso estava na palavra, no gesto, sem a presença do outro isso não seria possível.

Para nós, analistas, é um desafio estar diante de algo que não se pode colocar em palavras. Entretanto, garantir esse espaço de escuta do impossível é o que vai permitir a construção de uma representação dessa angústia, para então falar sobre ela.

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